O Medo das Mulheres em Envelhecer

Apontamentos elaborados para o Programa 'As Tardes da Júlia' de 9 de Julho de 2007, onde a Dra. Mónica de Sousa foi falar do tema em questão



Definição de envelhecimento:

O envelhecimento é a consequência da passagem do tempo. É o processo cronológico pelo qual um indivíduo se torna mais velho.

Relacionado com:
- a diminuição do funcionamento orgânico;
- a diminuição da resistência às agressões, sobretudo as do meio ambiente;
- e com o aumento do risco de morte.

Trata-se de um processo biopsicossocial de transformações, ocorridas ao longo da existência do indivíduo:

Dimensão biológica – diminuição progressiva da eficiência das funções orgânicas, ou seja, as do próprio corpo; o que leva, muitas vezes, ao aparecimento das “mazelas” próprias da idade.

Dimensão psicológica – diminuição de faculdades cognitivas (memória a curto prazo, rapidez de raciocínio, atenção e concentração).

Dimensão sócio-cultural – Na maioria das sociedades, devido aos valores sociais e culturais, às crenças e aos estereótipos, o papel do idoso é percepcionado como negativo.


O papel do idoso é percepcionado como negativo porque:

- Há um menor rendimento físico e até cognitivo (deixam de trabalhar);

- Há uma maior dependência dos outros (tanto emocional, como física);


 A nível físico, devido às transformações na imagem física a que o indivíduo está sujeito:

- aparecem as rugas;

- aparecem os cabelos brancos;

- a fisionomia do corpo altera-se.

Nessa altura, algumas pessoas tentam lutar contra um processo natural do desenvolvimento humano; aliás, natural do desenvolvimento de todo o ser vivo. E recorrem à estética, no âmbito de lentificar (até com um desejo secreto de eliminar) o seu próprio processo de envelhecimento.


Quase todas as mulheres começam:

- a recorrer a cremes anti-age;

- e a pintar os seus primeiros cabelos brancos.


Mas, ao longo do processo normal do envelhecimento, os cremes anti-age não são solução:

- porque não eliminam totalmente, nem evitam a longo prazo os traços próprios do envelhecimento.

- e, por essa razão, algumas pessoas (sobretudo mulheres), ainda querendo lutar contra o processo de envelhecimento, recorrem às operações estéticas.


Mas, outras não recorrem. Porquê é que será? Será que não têm medo de envelhecer?

Na minha opinião, essas pessoas interpretam o seu próprio processo de envelhecimento como algo natural, tentando usufruir das regalias próprias da velhice que, muitas vezes, são esquecidas. Ou seja, da sabedoria própria de quem já viveu muitos anos e de quem tem muita experiência de vida.


Medo de envelhecer:

A maior parte das pessoas tem medo de envelhecer. É, por essa razão, que, geralmente, tentamos “afastar” de nós os idosos, como querendo também “afastar” o nosso próprio envelhecimento e todo o sofrimento que acarreta.

É normal que os idosos tendam a considerar a fase da velhice com um certo receio e, até, com uma sensação de fracasso.

Ora, vejamos porquê:

- Os sentimentos de importância, de utilidade e de auto-estima são, muitas vezes, retirados quando o indivíduo se reforma e deixa de trabalhar;

- Chegada a esta fase, geralmente, a sociedade prescinde dos mais idosos, independentemente da sua aparência e competências para o trabalho;

- Algumas pessoas adoecem logo após a reforma porque, ao deixarem o seu trabalho, estão a deixar algo que, ao longo das suas vidas, foi uma fonte de satisfação ou, simplesmente, algo que os fez sentir úteis à sociedade.

- Pode haver muitas vezes uma inversão de papéis. Ou seja, o indivíduo que era competente, bem sucedido e independente pode tornar-se dependente e impotente, quer na relação com a família, quer com a sociedade em geral.

- O idoso começa a prever que a sua própria morte se avizinha, podendo ter medo dela, devido às percas afectivas, como a morte do conjugue, de amigos ou de colegas da mesma geração. Isto pode causar um certo stress.

- O idoso, quando deixa de ter capacidades para poder viver sozinho e se muda para um lar ou para casa de um filho, geralmente sente esta mudança como traumática.

- O facto de deixar uma cadeira favorita, um objecto decorativo, a sua cama ou, simplesmente, o facto de deixar a sua casa é como que se perdesse parte da sua identidade.


Medo de envelhecer: mais nas mulheres ou nos homens?

Geralmente, as mulheres experimentam o medo de envelhecer mais cedo do que os homens, sobretudo o medo de envelhecerem fisicamente. Isto, devido aos estereótipos de que:

- a mulher, para ter valor, para ter importância social e para ser desejada, tem que ser: belaelegante e jovem.


Diferentes medos de envelhecer: quando a mulher começa a ter consciência dos seus primeiros sinais de envelhecimento e numa idade já mais avançada:

Nos primeiros sinais de envelhecimento:

Há um grande medo de envelhecer fisicamente; o medo de deixar de ser bela, elegante e jovem. Aí, recorre-se aos cremes anti-age e à estética de rejuvenescimento.

Na idade mais avançada:

O medo já é outro:

- o medo das dores;
- o medo da incapacidade física;
- o medo da solidão e do isolamento social;
- o medo das percas afectivas;
- o medo de deixarem de se sentir úteis e com valor.

Geralmente, isto acontece quando se deixa de trabalhar, quando os filhos saiem de casa ou quando já não se precisa de tomar conta dos netos.


Estratégias para combater a solidão, o isolamento social e os sentimentos de inutilidade e de desvalorização:

Muitas pessoas idosas e, sobretudo, as mulheres tendem a combater a solidão e uma certa apatia, ao dizerem que estão sempre muito ocupadas:

- com as lidas domésticas;

- ou com saídas rotineiras, como o ir às compras ou ir visitar um determinado familiar ou uma determinada amiga.

No entanto, esta parece ser uma estratégia não mito eficaz, já que continuam a sentir-se sozinhas, apáticas e sem utilidade nem valor.

Conselho:

- Procurar actividades que dêem prazer, que proporcionem o bem-estar, o convívio e, até mesmo, os sentimentos de utilidade.

Objectivo:

- Proporcionar um sentido para a vida (Independentemente de ser ter 50, 60, 70 anos ou mais).

Exemplos de actividades:

- excursões e realização de actividades recreativas em grupo;

- voluntariados em actividades que lhes dêem prazer;

- ingresso na Universidade de 3.ª Idade ou ingresso num grupo/aulas de dança, de teatro, de informática, de inglês, de tapeçaria, etc.

Estas são actividades que não rouba todo o tempo disponível nem toda a “energia”, para que o idoso não se sinta sem “capacidades” para a execução de tais actividades.


Dificuldades inerentes às estratégias para combater a solidão, o isolamento social e os sentimentos de inutilidade e de desvalorização:

Às vezes, o facto da mulher idosa não procurar outras actividades fora de casa, no sentido de se auto-realizar, prende-se muito com o desconforto de deixar o conjugue sozinho em casa, já que este também se resignou ao conformismo, à apatia e à solidão que deles é esperada.

O facto da mulher idosa não procurar outras actividades também pode estar associado a ela ter aprendido, ainda nova, que o papel da mulher é em casa e junto do marido.

Mas, ao querer e tentar motivar o marido a ir com elas, a participar nas actividades com elas (mesmo que não consigam às primeiras vezes), pode fazer com que ambos se sintam mais motivados. Porque, muitas das vezes, a mulher ao dizer que o “meu marido não quer ir”, apenas está a desculpabilizar-se do facto dela própria não ter motivação para ir, para sair de casa e para romper com o seu conformismo.


No caso em que o marido não quer mesmo ir, mas em que ela anseia por ir, só não querendo deixar o marido sozinho:

Porquê é que será que não experimenta ir algumas vezes e ter contacto com a actividade que ambiciona realizar?

- Provavelmente, ao quebrar as suas resistências, poderá fazer com que se sinta mais animada, que consiga o tal sentido para a sua vida e, até mesmo, que acabe com ou que minimize a sua tristeza.

- Provavelmente, o seu entusiasmo e a motivação com que conta, ao seu marido, a experiência pela qual está a passar, sirva como algo de impulsionador que leve o seu marido a também querer tentar e experimentar.


Conclusão:

O idoso não tem que parar completamente, não tem que deixar de ser útil e não tem que se sentir desvalorizado só porque deixou de trabalhar, só porque os filhos saíram de casa, só porque já não precisam de tomar conta dos netos ou, simplesmente, só porque é o papel que lhes é dado pela sociedade em geral.

A forma como nos devemos sentir nos momentos
Não é aquela que é imposta
Ou aquela que é esperada,
É, simplesmente, aquela em que nós acreditamos.

 


Bibliografia:

FONTAINE, Roger (2000); Psicologia do Envelhecimento; 1.ª ed.; Climepsi Editores; Lisboa;

SANTOS, Purificação Fernandes Custódio dos (2002); A Depressão no Idoso: Estudo da Relação entre Factores Pessoais e Situacionais e Manifestações da Depressão; 2.ª ed.; Quarteto Editora, Coimbra;

WIKIPÉDIA - A Enciclopédia Livre (2007); Envelhecimento;
http://pt.wikipedia.org/wiki/envelhecimento

 

Contactos e informações:

Dra. Mónica de Sousa
Telemóvel: 91 907 11 22
Contacte por Email clicando aqui

 


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