Boas notas - crise de valores na escola?

Artigo escrito pela jornalista Rita Bruno, com a colaboração da Dra. Mónica de Sousa, na revista 'Família Cristã', na edição de Fevereiro de 2009



Um dos temas que surge muitas vezes em debate em várias áreas da sociedade, para além da crise (económica), é a crise de valores. Partindo de um exemplo real, a FAMÍLIA CRISTÃ alerta para a possibilidade de existirem alguns casos em que a crise de valores é literal e atinge…as notas dos alunos.

Não pudemos deixar de ficar confusos quando ouvimos «Susana» dizer à FAMÍLIA CRISTÃ que a sua filha «Mariana» tirou uma negativa para se sentir aceite entre os colegas. Não vivemos nós numa sociedade competitiva em que temos que nos distinguir entre os demais? Não ambicionam os pais que os filhos vão para a faculdade e por isso lhes dizem tantas vezes «estuda para seres alguém?» Não há médias para entrar no ensino superior? A par desta primeira reacção de surpresa que gerou todas estas questões, surgiu-nos o «advogado do diabo» com outras questões: sim, temos que nos distinguir, mas a distinção vai para os melhores ou para quem tem conhecimentos melhores? Vai para os inteligentes ou para os «espertos»? Ir para a faculdade é uma ambição, mas vai-se estudar para se ser «um desempregado»? Há médias para se entrar nas faculdades, mas com que critérios são dadas as notas?

«Mariana» é uma menina de 10 anos que estuda numa escola em Setúbal. No seu pequeno percurso académico tem alcançado bons resultados, no entanto, no decurso deste período, trouxe uma negativa para casa. «Susana», a mãe, estranhou um pouco, mas pensou que tivesse tido dificuldades em determinada matéria, tentou falar com a filha e perceber o que tinha acontecido. «Só percebi depois de a abordar algumas vezes. Comecei por perguntar se ela sabia porquê [de ter tido negativa]. Encolhia os ombros, até que acabou por dizer que queria ir para a explicação ao que eu perguntei se era por ela ter dificuldades. Ficou indignada e disse que conseguia e então revelou que era por gozarem com ela». Este «gozo» traduzia-se em expressões irónicas como «é muito certinha, a menina» ou acusatórias como: «só tens boas notas. És uma betinha».

Para tentar resolver o problema e ajudar a filha, Susana adoptou o método que escolheu para educar as suas filhas: a comunicação, seguida de uma explicação que lhes permita avaliar as consequências dos seus actos. «Perguntei-lhe se queria se não se importava de repetir o ano. Iria ter novos colegas que provavelmente lhe fariam o mesmo e que assim teria de pensar quantos anos iria ficar no 5º. Parece-me que se apercebeu que todas as situações tinham consequências e que tinha de fazer uma escolha e fê-la», continua. E esta escolha foi a de começar imediatamente a estudar para o teste seguinte, até porque Mariana se apercebeu que tirar negativa não lhe resolveu o problema já que em vez de ser gozada por ter boas notas passou a ser gozada porque «a betinha tirou uma negativa».

Tratou-se de um episódio pontual, mas que precisou de ser trabalhado, daí que seja importante que os pais estejam atentos, uma vez que, persistindo, o sentimento de rejeição pode levar a uma alteração de comportamentos das crianças que, não sendo conversada pode persistir. Mónica de Sousa, psicóloga, explica que mediante um sentimento de exclusão persistente a criança «ou afasta-se mesmo dos outros ou procura comportamentos que levem a uma recompensa, a ser aceite.» Na pré-adolescência e adolescência, o grupo de pares tem uma grande influência na construção da personalidade, mais do que pais e professores. «O grupo de pares tem um poder muito maior que os professores e outra função, que é a função da pertença social, de integrar o jovem», continua. Por isso, a explicação para o episódio da «Mariana» não passa por ela directamente. «Ser aceite não parte da própria criança, nem dos pais, parte dos colegas.» E neste caso, no meio em que Mariana se encontra inserida, ela pode ter sido «atacada» por fugir da norma.
 

Integrar as crianças

Mónica de Sousa é da opinião de que em muitos estabelecimentos de ensino, «o que está a acontecer é que a norma é os jovens não serem bons alunos. Por um lado, uma das razões pode ser a de que o sistema educativo não esteja de acordo com as necessidades desses jovens. Por outro, é o próprio funcionamento dos próprios jovens, o importante é passar.»

Aos pais que se vejam numa situação semelhante, Mónica de Sousa deixa alguns conselhos: «Uma criança excluída, ridicularizada pelos outros colegas, tem necessidades. Por um lado, o ser boa aluna, por outro, as necessidades imediatas que não são satisfeitas, como a pertença ao grupo de pares. E aí há que apoiar emocionalmente essa criança, falar com ela e mostrar-se disposto a ouvir o que ela sente. E compreendê-la.» Os pais podem ainda promover a integração dos filhos em vários grupos de crianças, por exemplo, o grupo da escola, o grupo da catequese, o grupo da vizinhança, o grupo da ginástica, para que a criança tenha a possibilidade de ver em qual se sente melhor e para que consiga perceber que pode ser excluída num grupo, mas não o ser noutro. Isto diminui o peso da rejeição. De acordo com esta psicóloga, pode também ser feito um trabalho preventivo de situações como esta, desenvolvendo o sentimento de auto-estima e auto-confiança nos filhos. E isto consegue-se nas pequenas coisas do dia-a-dia, não são precisas grandes receitas, apenas afecto.

Finalmente, é preciso que os pais conheçam os seus filhos e saibam as suas capacidades e as suas limitações. Não se podem exigir as mesmas competências sociais a uma criança muito introvertida e a outra muito extrovertida, por exemplo. Em grande parte, são os traços de personalidade que explicam que uma criança possa ultrapassar um episódio de rejeição e outra não. Há bons alunos que se sentem rejeitados e outros não, mesmo que os colegas os excluam. E Mónica de Sousa exemplifica: «Os bons alunos que não são excluídos [nos casos em que a norma não é ser bom aluno] têm fortes capacidades de relacionamento, fortes capacidades sociais; têm capacidade de liderança; em termos de recreio, conseguem ter ideias de brincadeiras, trazer os outros a si», remata.


Bons exemplos nas escolas:

Sara Fradique tem 14 anos e foi a melhor aluna do 8º ano de uma escola na Damaia e nunca sentiu na pele o problema da Mariana. «A minha relação com os colegas é muito boa. Não tenho nenhuns problemas. Penso que o facto de ter sido uma das melhores alunas do 8º ano não teve nenhuma influência nestas relações», afiança. Os pais da Sara também não tiveram que passar pela experiência de Susana, mas não desvalorizam que possa acontecer. «Tanto quanto conseguimos perceber, a sua [da Sara] relação com os colegas tem sido sempre muito boa. Caso ocorresse alguma situação deste tipo tentaríamos naturalmente desvalorizar o problema e fazer-lhe sentir que é muito mais importante para ela preocupar-se em estudar e perceber bem as matérias para aumentar os seus conhecimentos, do que sentir-se preocupada com as "palermices" de alguns colegas, muitas vezes motivadas por invejas e outras quezílias mais ou menos normais entre crianças. Claro que se a situação fosse mais grave, poderia ser necessário discutir o problema com o director de turma ou com outros professores», afirmam.

 

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Dra. Mónica de Sousa
Telemóvel: 91 907 11 22
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